7.01.2007

PERDEU-SE DA ESTRADA E ENCONTROU-SE COM A MORTE...

ASSOLADA TRAGÉDIA DE MORTE DUM JOVEM DE 19 ANOS DE IDADE

FELGUEIRAS

Na terça-feira 29, o infausto Rogério Manuel da Fonseca Ferreira, teve o conhecimento aziago que ia à inspecção militar no próximo dia 12 de Outubro.

Aquele jovem, de excelente compleição física e atlética, nascera em 14 de Junho de 1970, e fora pouco afortunado em saúde nos primeiros, e curtos, anos da sua vida.

Porém, adolescente, aquele exemplar jovem era uma pessoa muito concentrada e dava conselhos ou chamava à atenção dos seus irmãos, quando assim o entendesse, e de saúde robusta, que tanto custou a recuperar, vivia uma vida muito ponderada e relativamente feliz, nisto que para ele já não é vida...

PERITO NA ARTE DE BEM CORRER... CORREU PARA A MORTE!

Atleta da União Desportiva de Várzea, cá deste burgo, o infausto Rogério, velocista, era perito na arte de bem correr os cem metros. Neste clube encontrou a sua namorada, conhecida atleta nacional, Carla Machado, que participou recentemente nos Campeonatos do Mundo de atletismo. A par disto, o Rogério estudou até ao oitavo ano escolar, quando deixou para exercer a função de mecânico de automóveis.

Viria a ser esta de algum modo a sua funesta razão de deixar estes terrenos. – No dia em que soube que ia à inspecção militar, ao fim da tarde, o Rogério foi à oficina fazer uns biscates, mais um colega de trabalho – o Paulo, de 17 anos, que mora em Santa Quitéria...

PRELÚDIO DA GRANDE TRAGÉDIA

Cerca da meia noite, sairam da oficina e foram infortunadamente na estrada nacional que liga Felgueiras a Fafe, e ao passarem numa curva em Lameiro Morto, foi o próprio Rogério, por ironia, que alertou o facto de aquela curva ser perigosa e dever ser-se ali precavido... e não tardaram nada a regressar, quando eram cerca das 00.30 H, de quarta-feira 30, as sirenes dos B. V. de Felgueiras fizeram-se ouvir, num prelúdio de grande tragédia, porque não é hábito aquelas sirenes tocarem, porque há naquele quartel sempre alguns efectivos disponíveis, salvo se assim for necessário, e viria a ser necessário tocar outra vez...

De manhã, este redactor, que mora relativamente perto da que fora a residência do Rogério, começou por sentir a avalanche, traduziada nos rostos estampados das gentes, e o estoiro estava dado...

O infortunado Rogério cedera à morte, num fatídico acidente de viação naquela curva que antes fora ele próprio a alertar para a necessidade de precaução.

Havia recentemente adquirido um FIAT 127 900/C, com uns parcos escudos, ajudado pelos pais, o senhor Mário Ferreira e a senhora Emília Fonseca, fora o próprio Rogério que com estes tinham arranjado o aconchego do automóvel pelas próprias mãos, na habitação daqueles laboriosos e honestos pais, no lugar das Idanhas, nesta vila, operário de calçado e operária têxtil, respectivamente.

Porém, esse veículo não passa de uma grande amálgama de chapas, que serviu para cemitério do Rogério, como as fotografias documentam (já numa garagem mecânica), e a garagem do automóvel, não deixa de ser um espelho constante, naquela casa, de tão grande tragédia.

Naquela quarta-feira, esta vila de Felgueiras era uma vila sóbria: grupos de jovens de ambos os sexos, de blusas escuras ou não, todos traziam nos rostos, estampadas a sua tristeza sentida conjuntamente com os familiares que foram ver, do infortunado jovem.

UM ACOMPANHAMENTO FUNÉREO IMPRESSIONANTE

O Rogério, que fora autópsiado no Hospital de Felgueiras, de onde viria a sair para o cemitério municipal, cerca das 16 h. na quinta-feira, com enorme acompanhamento quer de pedestres, quer de automobilistas, – e eram de todas as idades e extractos os acompanhantes do malogrado Rogério Manuel da Fonseca Ferreira, que aos dezanove anos naquela que fora sorridente vida – e optimista, deixou ficar o mundo dos vivos, com grande dor para todos e profunda mágoa, na falta sentida da boa companhia que era para aqueles pais e irmãos, o exemplar malogrado.

Agora choram-no a irmã Goretti, de 25 anos, o Braulio de 17, que pacientemente nos prestou algumas declarações, daquelas que tivemos coragem para perguntar, porque mais não tivemos como tirar fotografias da imagem daquela tragédia humana, agora infestada naquele lar, infausto e obscuro sem uma luz daquele excelente jovem estimado por todos e a irmã Suzana de 14 anos.

O 127, presumivelmente a velocidade razoável, entrou na curva desorientado e entrou numa pequena ravina, de onde o Paulo, acompanhante do infortunado Rogério, foi achado quase ileso, recebendo apenas tratamentos no banco de urgência do Hospital de Felgueiras, onde perguntou pelo colega condutor, e como mais nada tinha sido visto, os prontos bombeiros voltaram ao local para encontrarem o Rogério já cadáver. Que assim, precisamente às 17 h. desceu à terra fria no fundo buraco, que não será como o fervor daquela vida que teve o jovem, e quente daquela tarde, frívola no desepero daquela mãe que apenas conseguia balbuciar os lábios sem matiz e sem voz, num rosto esbranquiçado, a despedir-se do seu «querido filho», e no rosto do pai inerte, estampada a amarga dor, viram o filho descer ao buraco, na urna coberta pela bandeira da União Desportiva de Várzea, lembrando o sacrifício que aquele malogrado filho teve em criança para sobreviver, e agora que gozava de excelente saúde, descia ali à terra funda, ao pé da avó que o criou com carinho, como se fosse mesmo ao pé, porque não se vislumbrava nada, como acontecera àquele jovem de estatura robusta, e estonteante para muitas das miúdas que ali o viram descer onde ficou o «Lindo menino» da Carla Machado, que não queria que o deixassem ir para ali; mas todos os presentes deixaram ficar ali o infortunado Rogério, jovem no seu esplendor do que seria vida.

– A lei da morte, que nós achamos que é da vida...

Nós próprios, deixámos ali lágrimas, também deixámos o Rogério ali... sem pudermos fazer nada(!)

Que descanses em paz, Rogério, junto do Deus Senhor, e se puderes pede ao Senhor que nos console, e dê acalento aos teus inconsoláveis e inconformados pais e irmãos.

Fica com Deus... já também que ficas em muitos corações!

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O veículo visto de trás: a amálgama branca do lado esquerdo é («foi»!) a porta do lugar do condutor

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O infeliz Rogério Manuel da Fonseca Ferreira, cuja morte aos 19 anos, deixou toda uma Região contristada

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Aspecto do lado mais danificado do carro... sair dali com vida, só por milagre!

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Pormenor da viatura, vista de frente, podendo-se apreciar da brutalidade do impacto

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O interior do veículo e a amálgama mortal do lado direito... o carro permanecerá guardado nesta garagem até decisão dos pais da jovem vítima

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Uma imagem de pesadelo: o interior do automóvel, ainda com resíduos de sangue

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O interior da viatura, transformado em féretro do inditoso jovem


Mário Adão Mendes de Magalhães

O Caso, 15.09.1989

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6.30.2007

ESPECTACULAR DESPISTE EM ARTÉRIA FATAL

FELGUEIRAS

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O Fiat Uno que «travou» o Fiesta

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Pormenor do Fiesta que originou o «espectáculo», que nem por isso terá ficado muito danificado


A Avenida Dr. Leonardo Coimbra, foi sempre uma artéria muito atribulada no que toca a sinistros, e dos muitos, a grande parte têm sido graves e fatais. É uma artéria que para além de muito movimentada, é via de ligação importante ao centro, tornando-a assim mais atribulada, quiçá pelos estacionamentos excessivos e indevidos, manobras impróprias e tudo mais.

Desta vez, foi um acidente provocado por excesso de velocidade, como de resto quase todos na mesma avenida, ainda que não houvessem ferimentos, pelo menos graves, a lamentar.

Cerca das 22 horas de sexta-feira, algumas pessoas que se encontravam a ver um espectáculo de cinema, no Cine-Estúdio, que se situa no Centro Comercial daquela avenida, foram chamadas, desta feita, a verem um outro espectáculo, este bem arrepiante e bem digno de figurar na tela, apesar de não ter havido intervenção de armas e explosivos usuais nos filmes, mas sim de uma amálgama de ferro e chapas por identificar, se o eram de verdade. Só que os principais intervenientes neste «espectáculo», não iam gostar do sucedido porque foram eles próprios os lesados. Pelo menos quatro.

Um Ford Fiesta, de matrícula QH-87-95, de cor cinzenta, abalroara um Fiat Uno 45, preto, de matrícula JA-19-34, estacionado ponderadamente, na berma e à sua mão, orientada para cima, como quem sobe a avenida. Só que este Uno por sua vez, como que numa cena cinéfola, com o impacto foi bater num outro Ford Fiesta, azul e de matrícula francesa 1327 SM 60, em frente igualmente estacionado. Este, por sua vez, fora ainda tocar numa carrinha Nissan de caixa aberta, QN-38-04, que ainda do mesmo modo estacionada e por estar assim, sofreu danos de pequena monta, porque como é evidente, a caixa aberta destes veículos, é mais difícil de amolgar. Mas o facto não ficaria por aqui, e não foi por acaso que se falou em «espectáculo»! O primeiro Ford Fiesta, tripulado por um senhor que soubemos chamar-se Afonso, ainda novo de idade, de quem ouvimos dizer que é vezeiro em correrias, foi embater ainda num outro Fiat Uno 45 S, também preto, de matrícula JN-59-82, mas este estacionado no outro sentido e lado da via, que fez parar o louco carro.

Mas o que é facto curioso, é que tudo aquilo juntinho, pelo que o mesmo Fiesta só tivera na sequência do despiste, de se atravessar na estrada, logo que embateu no primeiro Uno, talvez pelo impacto, e foi do modo como se encontrava na realidade, parado pelo segundo Uno.

Do resultado da velocidade excessiva, como se presume e está evidente, por sequência duma ultrapassagem mal feita a um camião, resultou o que as fotografias aqui inseridas podem minimamente documentar a brutalidade do embate que destruiu por completo o Fiat Uno do senhor José Júlio Moreira da Rocha, que havia emprestado há dias ao senhor Francisco J. Gonçalves Silva, de 23 anos de idade, mecânico (que tivera há poucos dias um outro acidente de onde o seu carro saiu para a sucata) e dava agora a possibilidade ao proprietário José Júlio de levar agora também aquele carro para o mesmo sítio.

O Fiesta de matrícula francesa, propriedade do senhor José Alberto Ganâncio, de 21 anos, ficara também fortemente danificado na traseira, ainda que na frente da viatura não tenha sofrido grande amolgadela, apesar do embate ter sido na caixa aberta da Nissan, que sofreu apenas umas lâmpadas partidas, por aquela caixa ser mais resistente. O causador de toda aquela brutalidade que originou aquele desaire, (não sofrera, não senhor!) danos consideráveis na proporção, a não ser no lado direito dianteiro que ficou contorcido, como é natural, mas nem assim ficou tão destruido ou torcido, como os outros, particularmente o primeiro Uno a ser embatido.

O Uno 45 S proprietário do senhor Armando Luís da Silva Ferreira, de 25 anos, sofrera alguns danos apenas na porta.

De todo o «espectáculo» o senhor Afonso, saiu quase ileso, indo receber apenas tratamentos hospitalares a pequenas escoriações na testa e não tardou de regressar ao «palco dos acontecimentos», para rever o «espectáculo» que realizara e produzira, tendo ainda entrado no carro a ver se o mobilizava.

Todavia, o reboque «pronto-socorro», veio buscá-lo, por sua vez aos outros no patamar, depois da GNR de Felgueiras ter feito as respectivas mediações e tomado conhecimento da ocorrência.

Quanto ao senhor Afonso, no outro dia de manhã, ouvira calmamente os lesados e fez a respectiva participação ao seguro, como de resto só seria de fazer.

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O estado em que ficou o Fiat Uno


Texto e Fotos - Mário Adão M. de Magalhães

O Caso, 12.01.1990

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FAMÍLIA FICA NA MISÉRIA

LOUSADA

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O desespero de uma mãe que viu perder tudo quanto tinha

As fotografias já não podiam documentar aquela fatídica tragédia.

Chegámos ao local, e o edifício, que compunha uma churrascaria e duas habitações anexas, estava quase totalmente reduzido a escombros, já não existiam - parecia de facto, mais um desabamento que outra coisa! Até o recheio, eram montões de destroços e alguns materiais de metal contorcidos, que antes foram o equipamento daquela churrascaria e das habitações - humildes, com certeza, até pelo que se deduzia de tão assolada tragédia, assim tão consumada, que não mostrava mais que ser um efifício pouco moderno, pelo menos desactualizado.

Mesmo defronte da estação dos caminhos de ferro, Estação de Caíde, ali na pequena povoação de Cavou de Rei concelho de Lousada, na sua divisão com Felgueiras, quando eram cerca das quatro horas da manhã, a senhora pressentiu água a cair dos tubos de canalização - presume-se assim, que fossem de plástico e fossem derretidos, constacta, que a sua casa estava a arder, vindo a consumir todo o edifício composto de rés-do-chão, em toda a sua extensão, por sinal comprida, apenas ficando a parede trazeira, de pé, e o resto, apenas resíduos.

Quando ali chegámos, os Bombeiros Voluntários de Lousada, procediam ao rescaldo, na escuridão daquela madrugada. Os mirones ali presentes, comentavam o sucedido. Na escuridão da madrugada a mãe sentada ao lado dos filhitos envoltos em cobertores, representando o drama. Assim aconchegádos, se for este o termo - enquanto lamentava e conjecturava virada para nós, como se a pudessemos ajudar: «Foram com certeza os malandros, que têm andado por aí a pegar fogo às matas» - A chorar, obviamente, sem que a questionassemos - confiante certamente que ao trazermos esta reportagem a lume, alguém a compreenda, e ajude.

As crianças, impávidas, só se mexeram dos cobertores daquele improvisado leito, levantando as cabecitas, temendo, com certeza, o inofensivo Flash, possivelmente não se achando ali seguros. Na madrugada fresca, em que um fogo - (fogo quente, como se entende), gelara as suas vidas marcadas ainda mais, pela tragédia.

A inditosa senhora, mãe daquelas crianças, desabafava para nós, enquanto disparávamos o Flash, frases amarguradas, defronte «daquilo», que fora o seu lar e ganha pão.

Esta família vê ainda pior o seu futuro.

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O olhar assustado das duas jovens crianças


Mário Magalhães

O Caso, 13.10.1989

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6.29.2007

UMA MORTE DESPOLETA O ESCÂNDALO

O VALE DO CENTRO HOSPITALAR DO VALE DE SOUSA

MENINA DE 3 ANOS MORRE POR QUÊ?

O Centro Hospitalar de Vale do Sousa, tem no decorrer da sua acção, que começou há sensivelmente três anos a servir Felguerias, suscitado graves desagrados a este ou aquele utente, mas tão habituados que estamos a isto, e nisto de saúde, quase não os temos realçado, e em conjunto com os utentes mais perto dali, que até conhecem melhor a ineficiência dos serviços, até por mais experiências.

Eis que um caso, e de morte, salta agora para a imprensa! Há dias, uma menina de três anos, foi observada na secção de Paredes daquele Centro Hospitalar, e queixando-se ainda, era de uma perna, foi encaminhada para a secção de Penafiel, para ser submetida a intervenção cirúrgica... Só que talvez porque não é(ra) filha de ministros, a intervenção como é normal nestes casos, era para ser daí a dias; talvez até porque ali se trabalhe «a dias» como já acontece noutros hospitais (!)

Num dia em que a criança estava mais birrenta, a mãe sai à rua para adquirir um objecto de brincar pretendido pela criança e ao regressar ouve que a filha estava a morrer, e operada que ia ser naquela tarde... Reconduzida ao Hospital de Paredes, a inditosa criancinha é transportada para o Hospital de S. João, onde falece.

É acusado pela família da criancinha, o Hospital de Penafiel, de aplicação de um medicamento injectável contra-indicado, que pode ter sido a causa de tão fatídico acontecimento e quando a enfermidade, parece que residia num dos membros inferiores da criancita. Aguarda-se ainda o resultado da autópsia, para Setembro (não esquecer que a época é de veraneio!) Quando será dado a conhecer à família que entretanto já sabe que a inditosa criança apresentava o corpito todo negro.

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Saúde em Portugal: uma urgência sem «banco» que a acolha e resolva o mal!

É um exemplo concreto. E dos muitos que vão acontecendo nos hospitais deste País, um pouco deste ou daquele modo; política de Saúde portuguesa, com certeza – rima e vem sendo verdade!

Mas só ressaltam estes casos de morte... Que no entanto eu não fosse ser extenso, contar-lhe-ia aqui uma história, esta seria uma história, de pasmar de igual modo, e bem concreta, porque se foi passando comigo.

Fora transferido do Hospital de S. João, no Porto para ali, e depois de largas duas horas à espera no corredor numa coisa que chamavam maca, deixado pelos bombeiros, eu com tudo o que trouxera dos longos dias e fatídicos, não lhes digo horrorosos para não se arrepiarem, como sendo livros, alguma fruta e garrafas de água, que por sinal fora comprada no interior do Hospital no Porto, que então era assim permitido, e já as amigas canadianas envoltas num plástico para estreia daí a uns mesitos e alguns relatórios dos clínicos do Porto, tudo em cima de mim deixado, eu fora ali achado ao cabo de duas horas, talvez já fartos de me verem naquela situação algo inconfortável, e dali começo eu a decifrar o relatório que nem era entendido por aquele pessoal de serviço, que concluira que estava bom, eu que tivera a morte por pertinho, noutro caso até seria de ficar bem contente!

Portador que fora da mensagem e muito pior do meu estado, eu contrapus, mas sem valor, porque fora convidado a «dar um copo ao motorista» ao serviço daquele Centro Hospitalar, (!!!), o que obviamente aceitei, e porque tão só era vir para casa, pois se não! Como indicava que estava ‘melhor’, e até porque não ficaria ali a fazer nada – como disse o clínico, se não aceitasse tal proposta, pelo que por favor me era deixado ali ficar numa maca até ao outro dia de manhã para não dar entrada legal nos respectivos serviços.

Tal hospitalidade não só não me agradaria, como a insistência repisada da oferta do copo pelo motorista quando chegou ao pé de mim, fizeram que eu aceitasse vir embora onde sempre tinha quem melhor tentasse tratar de mim, ileso naquela maca.

Chegado a casa e servido o copo ao motorista, depois da estupefação dos meus familiares, de que eu estivera tão mal e fora recambiado assim para casa, foi feito um telefonema para o Hospital do Porto, que obviamente declinou responsabilidades, dizendo que me transferiu e não mandar enviar-me para casa!

Novo telefonema é feito, mas para o Hospital de Penafiel, e é por ali dito que ao outro dia regressasse ali, sendo assim, para ficar internado. E eu não me fiz tardar, de ambulância obviamente, e chegado ali, é dito, que se o colega do dia anterior, tinha dito que estava bem, e que me mandara para casa, não ia desfazer do que ele dissera, mesmo sem que, como o do dia anterior, me hajam consultado! E perante tal estupefação, explicavam os meus acompanhantes que fora mandado por fim ir ali daquela vez por um colega, mas mesmo assim foi contraposto, e disseram que voltasse ali no dia dezassete, estando no dia treze, eu achei ser de mais, dados os cuidados que eu tivera no Porto, mas me fui acalentando ali estendido, mas viria a ficar mais admirado, que era do mês seguinte... (!)

Pronto! Foi esta a recepção e cuidados que recebeu um doente em «cuidados extremos»!

Foi no nosso hospitalinho de Felgueiras que me foi acolhendo, onde por fim me hospitalizei mesmo sem que ali houvesse a especialidade, até que volto a Penafiel no dia predestinado, quando me é retirada, a tala de gesso, e começara a ir andando sem que uma radiografia ainda fosse tirada, e começara a fazer fisoterapia, que por infelicidade minha, viria a ser ali também quando pode ser, até que ao cabo de sete meses sensivelmente, decido consultar um conhecido especialista do Porto que me pediu as radiografias nunca tiradas e logo que me tiraram ali uma num instante, eu oiço dizer que teria de ser operado de novo porque o material de osteossíntese estava partido, e eu que andara ali o tempo todo, eu de mim, sou masoquista, para conseguir suportar toda aquela bagunça que quase tanto me afligia como o meu martírio físico, mas a dar gastos e ocupar os lugares de quem também precisava, e tinha pachorra para ser mal recebido nos tratamentos de fisioterapia, se mal tratado já era, e nem mesmo a médica responsável atendia quando os bombeiros se atrasassem uns cinco minutos, creio, comigo, que não foi só essa vez que fui atendido, para ser olhado apenas, sem que nada fosse examinado e nunca mandado ser radiografado para que se soubesse ao que me estavam a mexer. E partir ferros não é fácil!

E hoje pedaço disso ainda, depois de ter dispendido umas centenas de milhares de escudos e ir à medicina privada.

Por incompetência. Ineficiência dos serviços. Falta de vontade – ???

Será que já na altura se pretendia mostrar a ineficiencia e incompetência daquele Centro Hospitalar, dos seus clínicos, naquelas instalações para que fosse o edifício projectado para ser construído dentro dos mesmos meandros, como a ministra quer?

Foi essa a História em termos sucintos, duma situação fatídica de que ainda hoje padeço, e mesmo me fica nas marcas mentais, e que agora, só por tocar no assunto fugazmente, me fez alterar até mesmo a síntese deste apontamento que me enjoou que não posso deixar de mostrar o meu repúdio, que estava a deixar para altura mais oportuna e com repercussões graves que eu vou tentar reflectir, perante tão macabras pessoas que têm a nossa saúde nas mãos deles! E isto a propósito duma morte.


Mário Adão Mendes de Magalhães

O Caso, 01.09.1989

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EM QUARTEL DE BOMBEIROS SOCORRE-SE A «PÉ»!

É verdade!

Se um dia, ao chamar os bombeiros, estes depois do alarme lhe forem ao encontro passados largos minutos... não se admire!

Isto porque há bombeiros e bombeiros, a fazer lembrar aquelas estrofes que o Paco Bandeira canta: «Há ciganos e ciganos (...)». Mas o facto é que estes por vezes são humanistas.

E que ao alarme para sair uma viatura para o socorrer, sucede-se uma «conferência» entre quem vai e não vai.

Enquanto voce, espera!...

E por fim, pode muito «bem» ir a viatura tripulada apenas pelo motorista, que fará simultâneamente de maqueiro e socorrista...

Isto, claro, porque uma (má) boa dúzia de outros homens, deleitam-se ali afagados pelos goles de cerveja e gritos eufóricos! E a ver no intervalo dum filme no televisor: «SE CONDUZIR NÃO BEBA» porque «SE FOR A SÉRIO É UM CASO SÉRIO»...

Causídicos, dum bonito exemplo, e de iguais repercussões, como se seja!!!

E se um dos homens durante a noite de piquete, necessitar de socorro – sim, porque ninguém está livre? – far-se-á chegar ao hospital a pé! Como aconteceu há tempos, numa madrugada...

Entretanto se você vai habitualmente aos serviços clínicos – e tem de ali estar a horas, com certeza já lhe aconteceu, chegar a horas... mas tardias! E até perder o tratamento por «Abuso de chegar tarde».

Pelo menos comparece! (E é-lhe pago o serviço).

Mas se felizmente, nesse dia houver só o seu serviço para determinado destino, prepare-se para esperar até à próximo... Se entretanto na prestação dos serviços clínicos ainda o aceitarem... Isto porque você aguardava que o fossem buscar – mas «não puderam, houveram muitos serviços» – é-lhe dito posteriormente.

Enquanto o serviço ulterior, foi apanhar sol e afagar-se nuns goles de cerveja, enquanto se rói na casaca... como as mulheres linguareiras de rua!

Como se você – ou antes, a (in)segurança Social – em seu nome, e todos nós, não pagássemos.(...)

E dizem-se voluntários!!!(Os de Felgueiras)...

Seria bom que se soubesse que se assumindo (voluntários), acreditámos neles! – Mas nem a pagar...!

Porque gostámos imenso dos B.V.F. e desde miúdinho, sentimos um incalculável orgulho e simpatia por estes, reportámos aqui este caso, para evitar acontecer agravamento noutros ou trazer-se a lume, de resto um fogo, que difícl de apagar se tornaria, na dignificada corporação, tão ilustre e dedicada (quiçá por algun(s) efectivo(s) menos escrupuloso(s)).


Mário Adão Mendes de Magalhães – Felgueiras

O Caso, 1989 ?

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10.31.2004

DURA A CAMINHADA... DUM ANCIÃO

No passado sábado, demandou por esta vila um ancião, que deve ter sido trazido não por seus meios ou vontade específica, dado o estado de conservação daquele desgraçado ancião, cujo mais desgraçado que o próprio ancião, com certeza!
Dizia não ter familiar algum, o que só por se ver o pobre do velho ali naquele estado e ali vindo sabe-se lá de onde, fazia querer que mesmo que tivesse, o que pela lógica faz crer que sim, era exactamente como se não tivesse; ou pelo menos sem dignidade ou credibilidade de tal estatuto.
Cremos até que era vivacidade da parte do velho, que com certeza de bem tido pelos seus possíveis familiares, que não reagem menos que a indicar o complemento do que já atrás se disse, era vivacidade, e dizíamos, por se querer ele próprio, quase inerte, bem longe deles, razão certa pela qual dizia não possuir para que o mantivessem bem longe.
Roto, sujo e mal ataleigado, era o envolto do que se diz um corpo humano; apoiado numas canadianas que mais pareciam do terceiro mundo ou pré-história, feitas de pau velho e já de muitas andanças até suportando o pobre e leve corpo, mas de pouca mobilidade, e como tinham umas cores estragadas pretensamente como as de um invisual, veio a constactar-se que tinha muita dificuldade de visão, e queria seguir viagem com algumas roupas que se chamam vulgarmente farrapos a esturbar mais o pobre e desgraçado ancião na já difícil tarefa de manejar e se deslocar.
Alguém o ajudou a sentar-se ali nas imediações dum moderno complexo, como por ironia, e de tanta gente bem enfarpelada, muito poucas eram as que lhe ligavam importância, de um só olhar.
Se familiares deixavam o pobre ancião demandar-se assim ao Deus-dará, houveram duas boas almas que não deixaram o homem, porque era um homem, ao destino imprevisível que o mais natural seria acometer-se de acidente mesmo de atropelamento, ou outro possível, e metido num carro, aquele homem, pôde andar de carro, foi levado por dois senhores de bom coração, que até sabemos confirmar, porque conhecemos um, mais ou menos destes meios de comunicação, e outro de actos de dinamismo, que levaram o ancião ao asilo local onde não parecia haver muita disponibilidade para o aconchegar, mas reparado em pormenor, pode perceber-se o corpo dorido e saliente de habituado aos colchões das ruas, e estado aparente, que ao pressentir uma Irmã da Caridade, lhe falou cheio de ternura, que ficava já ali naquele maple, bem mais suave para os seus ossos, que lhe valeu pronto aconchego e eficiente bem como ser de imediato saciado daquela sede de fome...


Mário Adão Mendes de Magalhães

O Caso, 15.09.1989

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