6.30.2007

Mediador Cultural

Bruno foi contratado para evitar conflitos no Hospital Dona Estefânia

As intervenções da polícia deram lugar à gestão cultural


É O ÚNICO em Portugal e, por sua causa, um cargo que não existia foi inventado. Mas Bruno Oliveira, de 24 anos, não gosta de falar na primeira pessoa. «Quando digo nós quero dizer eu...», explica, numa entrega plena ao papel de mediador cultural para os ciganos do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.

Foi, aliás, a sua dedicação aos outros que convenceu a enfermeira Adelina Motta, de 49 anos, a confiar-lhe, desde 2003, a gestão das relações com a sua comunidade cigana.

«No âmbito de um protocolo que temos com escolas técnico-profissionais, o Bruno fez um estágio no hospital, em que demonstrou perfil para resolver conflitos», recorda Adelina. «Apesar de não termos a categoria de mediador cultural nos nosso quadros, percebi logo que seria uma óptima contratação».

Três anos depois, a aposta num auxiliar de acção médica nada convencional revela-se acertada: «Antes de chegada do Bruno, os problemas com ciganos eram diários. Queriam montar acampamentos no jardim, levavam as aves que tínhamos espalhadas no exterior, calçavam galochas e enfiavam-se dentro do lago para apanharem os peixes».

Agora, congratula-se a enfermeira, «aceitam melhor as regras da instituição, porque ouvem-nas da boca de alguém com a mesma cultura».

Os benefícios, avalia, medem-se no desaparecimento das agressões aos funcionários e expressam-se no sentimento de que «o Dona Estefânia é tão bom que até dá emprego aos ciganos».

A confiança, conquistada sobretudo nas urgências do hospital, substituiu as até aí recorrentes intervenções policiais. E, a médio prazo, acredita Bruno, «poderá apagar a imagem de causadores de distúrbios normalmente associada aos ciganos».

Segundo o mediador, a ideia de que são um povo anti-regras, «que entope as urgências e salas de espera dos hospitais», tem de dar lugar à consciência sobre as suas diferenças culturais. «Por questões de solidariedade familiar, quando um cigano é internado, os familiares mais próximos têm o dever de o acompanhar ao hospital», esclarece o mediador.

Na gestão de sensibilidades, Bruno disponibiliza o número de telemóvel, convence os mais resistentes entre tragos de café e recebe convites para aniversários e csasamentos. «Vêem em mim um representante», diz, com orgulho.


Sol, 01.12.2006